Vá procurar sua turma!

Desde o surgimento do Macintosh ou até mesmo do antigo Apple II, o que mais diferenciou os macmaníacos (ou applemaníacos) dos pecezistas não foi exatamente o equipamento que cada turma utiliza, mas sim, o sentimento de grupo. Mais que fãs dos gadgets da Apple, esses usuários gostam de se sentir sendo parte de uma comunidade.

Este sentimento deve ter muitas razões. Uma delas certamente é o encanto do ícone Steve Jobs e seu Campo de Distorção da Realidade; outra, é o estilo de vida que a plataforma vende e com o qual a maioria dos usuários Apple se identifica. Mas em terras tupiniquins há um outro ingrediente importante a ser adicionado nesta fórmula: a fatia de mercado da plataforma sempre foi muito pequena e ainda é bastante difícil obter informação ou recursos para os Macs. Mesmo hoje, com o crescimento da Apple no Brasil, os produtos da empresa continuam sendo vendidos a preços relativamente altos para nossa realidade.

A soma de tudo isso resultou no fato dos macmaníacos serem muito sociáveis uns com os outros. Pois os MUGs (Macintosh User Groups) são decorrentes deste desejo de comunidade, como explica Sandro Nitri, presidente do BR MUG. “Somos uma organização criada por pessoas com interesses em comum e dispostas a compartilhar informação sobre computadores e produtos Apple e as conquistas, facilidades e dificuldades relacionadas com a tecnologia digital”, afirma. Dentro dos objetivos do BR MUG não está somente “a fria discussão tecnológica, mas também a promoção de um ambiente agradável e amigável”, conta Nitri.

O Brasil Apple Clube, o único AUG (Apple User Group) brasileiro registrado no site da Apple, também divide o objetivo de “confraternização e troca de informações entre usuários de equipamentos Apple”. Apesar de estar sediado em Porto Alegre, RS, o clube conta com diversos “cônsules” em todo o Brasil, que têm o papel de representar e coordenar as atividades do clube na sua cidade/região.

Um pouco de História

No Brasil, o sentimento de comunidade entre os applemaníacos existe há mais tempo que se imagina. Já no final dos anos 70 surgiu em Porto Alegre o Brasil Apple Clube, o primeiro grupo de usuários Apple no país que se tem registro: “A ideia surgiu do fato de sermos ‘mais do que um’ em novembro de 1979: o Bernardo, com seu flamante II+ , o Aristóteles que só foi ter um em 81 e o Heliano, que ficou na vontade: usava um mainframe na Embraer”, conta Luiz Ernesto Pellanda, um dos fundadores do clube.

Sem toda a atual tecnologia que nos cerca, a comunicação era feita com encontros periódicos, onde se trocavam experiências e manuais datilografados dos computadores que faziam a cabeça do pessoal na época, incluindo os dinossauros Apple IIe, Apple IIc e Apple IIgs, cultuados até hoje. Mais tarde, o clube começou a produzir periódicos com informações e programas, que eram distribuídos em disquetes e enviados pelo correio aos seus associados. O ponto alto foi o jornal AppleTalk publicado entre 2001 e 2003, que contava com notícias atualizadas, tutoriais e artigos de opinião, elaborados por uma grande equipe de associados do clube, ligados pelo simples prazer de conhecer mais e divulgar a plataforma.

Chegando a 2009, o clube completa 30 anos de encontros e amizades: “Reuniões agora só eventuais: os encontros são virtuais, via grupo de discussão”, explica Pellanda. O grupo de discussão ao qual ele se refere é a lista MacUsers, fundada em 1995, no começo da internet comercial no Brasil. Atualmente com mais de 500 assinantes, ela está hospedada no provedor Yahoo! Grupos e é moderada por Marcus Rodrigues, cônsul do clube em Caxias do Sul, RS.

Nesta mesma época, começam a aparecer outras listas de discussão para Mac, que hoje em dia, formam a maioria dos “grupos de usuários” do Brasil. A lista Mac-BR faz parte deste grupo e provavelmente é uma das mais antigas em atividade. Herdeira do grupo de suporte tribo-mac, no Rio de Janeiro, “ela teve origem no Ibase, cujo Alternex era o único provedor de acesso mais ou menos comercial do Brasil” conta Pedro Doria, fundador da lista. Entre 1995 e 1996, o grupo foi extinto pelo Alternex e Pedro pediu uma mão ao seu amigo Maurício Sadicoff, colaborador da MAC+, para recriar a lista fora do Ibase.

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No começo de 1997, compromissos profissionais deixam o tempo para os Macs cada vez mais escasso para a dupla, mas o grupo continuava ativo, com grande troca de mensagens. “De repente todos os emails de novatos estavam sendo respondidos mais rápido do que eu consegui ler”, lembra Maurício. “(O Pedro) me perguntou se eu me incomodava da gente passar a moderação da lista pra esse cara novo, afinal, nós dois andávamos ocupadíssimos com outros projetos. Eu topei na hora”, completa. O tal “cara novo”, motivo das mensagens, era Mario Jorge Passos, também colaborador da MAC+, hoje moderador da lista, atualmente com cerca de 350 assinantes.

Do outro lado do Atlântico, a comunidade macmaníaca portuguesa também tem tradição. Quem garante isso é Pedro Aniceto, colaborador da Mac+ na pátria-mãe e criador da lista “O Correio dos Outros” em 1998. Na época, como Gerente de Produto da representante da Apple em Portugal, ele recebia uma enxurrada de perguntas acerca do novo lançamento da Apple: o iMac. Ele conta: “Foi precisamente para organizar e sistematizar essas informações repetidas e repetitivas que montei um esquema quase informal de F.A.Q, por email”. A lista cresceu de tal maneira (hoje são mais de 4.000 inscritos) que Pedro teve vetar novas inscrições. “Uma vez que ‘O Correio dos Outros’ não é uma lista automatizada (decisão do moderador dado o volume de tráfego da mesma), os novos assinantes só são adicionados quando existem vagas”, explica.

Ao contrário das listas brasileiras, que em geral contam com poucos “patrícios”, O Correio dos Outros é uma autêntica babel: “São assinantes de quarenta e um países, todos falantes de português e tem membros em todos os continentes!”, diz Aniceto

Ainda em Portugal encontramos o iClub, um “grupo de utilizadores” que mantém um site, que busca ser uma fonte de notícias, ensaios, discussão, dicas e resolução de problemas para macmaníacos.

Outro grupo herdeiro de listas antigas é a lista Maçãs Selecionadas, criada pelo amazonense Alexandre Fontoura. Fundada em 2000, foi uma tentativa de reunir os “órfãos” da lista MacBBS-Mac, de São Paulo, criada e mantida por Dimitri Lee, fundador do falecido MacBBS, único provedor brasileiro totalmente baseado em Mac. “A lista reunia uma turma pequena mas muito legal de macmaníacos. Éramos menos de 100”, conta Alexandre. “Eu e mais uns cinco ou seis listuários começamos a trocar mensagens de email, lamentando o fim da lista da MacBBS, até que tive a ideia de lançar uma lista hospedada no Yahoo! Groups”, completa.

Pois a “tentativa” começou a crescer de maneira surpreendente e hoje conta com mais de 1.200 assinantes. Com todo este volume de usuários, Alexandre resolveu convidar mais dois amigos para administrar a lista, a paulistana Sueli D’Almas e o carioca Milton Pinho Majella.

Listas para todos

Curiosamente, poucas são as listas exclusivas de iPod ou de iPhone que estão ativas. Uma delas é a iPhoneBrasil, fundada em 2007, que hoje conta com mais de 80 assinantes. Como não podia deixar de ser, seu objetivo é propiciar troca de experiências para todos os usuários de iPhone no Brasil. Mas em geral os usuários do telefone da Apple procuram fóruns ou sites especializados, ou acabam por aderir às listas de macmaníacos. Para Alexandre Fontoura, isso é positivo para a plataforma. “Se havia alguma discriminação ao Mac por usuários de Windows, a partir do momento em que começaram a adquirir iPods e iPhones e a perceber como eram coisas geniais, devem ter começado a pensar: será que os macs são assim tão legais como seus usuários apregoam?”

Mario Jorge, da lista Mac-BR, também aponta esta migração de pecezistas para o mundo Mac. “A lista tem crescido, lenta e regularmente, com o aumento da venda de Macs tanto para donos de Macs que antes não podiam comprar máquinas novas, como para usuários de Windows.”

Pois justamente o alto preço dos Macs aqui no Brasil fomentou a criação de mais uma lista, BriqueDoMac, O grupo é dedicado a troca de ofertas de equipamentos Macintosh e outros produtos da Apple que sejam de segunda mão e promove a parceria entre os assinantes para negócios que envolvam os produtos da Apple. A ideia é, mais que vender produtos, trazer mais pessoas para a turma.

Aparentemente navegando no sentido contrário, outros grupos resolveram permanecer à margem da atualização tecnológica, para se especializar e prestar suporte para os antigos equipamentos da Apple. É o caso do grupo ClassicMacBR, criado em 2004. “Nosso objetivo é juntar uma comunidade especificamente interessada em Macs antigos para que se ajudem mutuamente”, como explica seu fundador, Emerson dos Santos. “Os usuários (de outras listas) são focados mais no uso de equipamentos atuais. A ClassicMacBR tem o foco orientado mais para colecionadores e entusiastas, usuários com perfil bem diferenciado”, completa. A AppleII_BR conta com cerca de 170 e é dedicada ao pessoal que gosta e ainda usa (!!!) o Apple II e seus similares nacionais. Já a NewtonBrasil, lista de amantes do primeiro PDA que se tem história e pai do iPhone, é menor: está com cerca de 80 usuários atualmente.

Mesmo com o grande número de comunidades englobando todo o país, os macmaníacos também se organizam em pequenos grupos de interesse, como listas especializadas em FileMaker, Final Cut Pro e Photoshop, ou locais, como a Mac Maníacos ES. É como conta Marcel Pederzoli, proprietário da lista do Espírito Santo, que conta com cerca de 20 assinantes: “A ideia da lista surgiu no momento em que precisava reunir todos os meus amigos fanáticos por Mac para discutir de forma mais rápida e ágil os assuntos de nosso interesse. A única regra para participar da lista é ser fã da Apple”, completa.

Enquanto algumas listas são bastante liberais, outras são mais restritas. “Consideramos a lista um local de reunião de ‘amigos que usam Macs’. Quem não se enquadrar nesta definição e estiver procurando exclusivamente informações técnicas ‘frias’, não vai se ambientar”, explica Milton Majella, da Maçãs Selecionadas. Já para Mario Jorge Passos, da lista Mac-BR, o que mantém a lista é justamente a manutenção de suas regras: “As regras são poucas, mas basicamente que não há off-topics – o assunto é Mac -, que flamewars – bate-boca por qualquer motivo – não são tolerados, e ismos de qualquer tipo estão fora da lista.”

Com toda esta variedade, a participação dos macmaníacos em uma ou outra lista depende da sua personalidade e também do perfil da lista. Para Luiz Pellanda, do Brasil Apple Clube, isso é positivo: “A participação em mais de uma lista é a regra. Mas cada uma tem suas características diferenciais, de onde permanecem com sua individualidade”.


Marco Andrei Kichalowsky é ex-presidente do Brasil Apple Clube.

 

Marco Andrei Kichalowsky

Editor-chefe do macnarama.com, é applemaníaco e trabalha com produtos Apple desde 1993. Foi presidente do Brasil Apple Clube durante 10 anos e colaborador da saudosa Macmania e sua herdeira MAC+ até o fim da revista em 2015.

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