Fã da Apple guarda em casa o que há de mais moderno e também o obsoleto

Muitas das coisas hoje essenciais à vida moderna não passavam de ficção científica quando o psicanalista Luiz Pellanda, 74 anos, decidiu comprar seu primeiro computador. Em uma viagem aos Estados Unidos, em 1979, ele trouxe na bagagem um Apple II, a segunda geração de máquinas da empresa da maçã. Pellanda se apaixonou pelo equipamento — e pelos outros tantos que a companhia lançou desde então — e fundou o primeiro clube de applemaníacos do Brasil, com sede em Porto Alegre. O clube, na verdade, nunca se formalizou, mas chegou a reunir algumas centenas de fanáticos pelos aparelhos da Apple, em todo o país. Gente que, assim como o psicanalista, se virava para aprender mais com a tecnologia.

“Nós entrávamos nas lojas de eletrônicos, mesmo nos Estados Unidos, e ninguém sabia o que era um computador, ninguém nunca tinha tido notícia dessa coisa”, lembra Pellanda. Isso sem falar nas pessoas que classificavam esses primeiros applemaníacos como os mais malucos do mundo. “Tinha gente que tinha até medo. A coisa era tão empolgante que nós passávamos a noite inteira mexendo nas máquinas. Meus amigos diziam que minha esposa tinha ficado viúva por causa do computador”, conta o psicanalista.

A companheira de Pellanda, contudo, nunca achou o interesse do marido esquisito. Pelo contrário. Nize Pellanda, 72 anos, acabou sendo influenciada pelo gosto dele e até mesmo mudou seu campo de atuação. “Eu era professora de história, mas aí decidi fazer o concurso para docente na área de informática educativa e acabei me especializando no estudo da interação entre as pessoas e as máquinas”, relata Nize. A paixão pela tecnologia também conquistou um dos três filhos do casal. Eduardo Pellanda virou professor universitário e trabalha com comunicação multimeios.

Bê-á-bá

As “crianças”, como diz Luiz Pellanda, foram a principal motivação para a entrada da família no mundo da tecnologia. O psicanalista afirma que, na época, imaginou que o computador se tornaria um poderoso aliado da educação infantil. “Nossos filhos praticamente se alfabetizaram em frente às máquinas, e olha que a coisa ainda era bem tosca”, lembra Nize. Os recursos eram tão limitados que o usuário de um Apple precisava aprender alguma linguagem de programação, geralmente, o Basic, para conseguir fazer coisas hoje consideradas simples, como criar um documento de texto.

Tudo ficou mais fácil quando surgiram as planilhas eletrônicas, que, mais tarde, deram origem a programas como o Excel. “Depois disso, lá pelos idos da década de 1980, apareceu o primeiro processador de texto, de uma tal de Microsoft, uma companhia bem pequena”, lembra Pellanda. Sim, no começo de seu império, Bill Gates queria vender seu produto para a Apple, que ainda não fabricava softwares exclusivos para seus aparelhos.

Para se ter uma ideia de como esse mundo ainda engatinhava, Pellanda recebeu uma carta da Apple em 1981, pois a empresa estava impressionada com a fundação do clube. O psicanalista foi convidado, então, a fazer uma visita à sede da empresa em Cupertino, na Califórnia, antes de a cidade virar uma das mais importantes do Vale do Silício. “Mas eu não conheci o (Steve) Jobs. Na época, ele nem sequer era uma unanimidade. O grande cabeça da empresa era o (Steve) Wozniak (parceiro de Jobs), que havia construído um computador sozinho.”

Vacas magras

Tempos depois, o applemaníaco gaúcho ficou um tempo sem conseguir comprar produtos da Apple no Brasil. Segundo Pellanda, o governo estava criando muitas dificuldades à importação e, além disso, surgiram alternativas nacionais. “A indústria local começou a ocupar um espaço mais importante e surgiram verdadeiros clones dos computadores da Apple”, lembra o nada imparcial fã da maçã.

“Houve uma época em que eu não consegui mais comprar nada da companhia. Só dava para ter Windows, que era uma porcaria”, opina. Em 1994, os filhos de Pellanda juntaram um dinheiro e deram ao pai de presente um Macintosh Performa — que não era lá um grande sucesso da Apple, mas que deixou o psicanalista muito feliz.

De lá para cá, Pellanda se mantém atualizado com as novidades da companhia de Steve Jobs. Tem um iPod de cada geração (exceto da primeira), um iPhone 4, um iMac, um iBook Pro e, claro, um iPad. O primeiro, porque “a urgência não é ter o último equipamento, mas aquele que satisfaça às minhas necessidades”. E, aos críticos do novo tablet da Apple, o psicanalista deixa seu recado: “Qualquer decepção em relação ao iPad 2 é infundada. A Apple sempre foi uma empresa evolutiva. Além disso, nenhuma concorrente conseguiu criar um produto à altura do iPad, não é mesmo?”, questiona.

Pesquisador visionário

As ideias que Luiz Pellanda tinha sobre o uso pedagógico dos computadores ainda não eram tão comuns na década de 1970, mas já havia pessoas que enxergavam novas funções para as máquinas. Uma delas era o matemático e educador Seymour Papert, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Papert é o criador da linguagem Logo, voltada para crianças, na qual uma tartaruga animada executava as operações na tela.

Para iniciantes

O Basic, sigla para Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code, foi uma linguagem de programação criada por professores na década de 1960. A ideia era que estudantes usassem a ferramenta para aprender os princípios básicos da programação. O Basic caiu na boca do mundo anos mais tarde, quando Bill Gates colocou a linguagem em seus sistemas operacionais.

[Artigo originalmente publicado no Correio Braziliense.]

Marco Andrei Kichalowsky

Editor-chefe do macnarama.com, é applemaníaco e trabalha com produtos Apple desde 1993. Foi presidente do Brasil Apple Clube durante 10 anos e colaborador da saudosa Macmania e sua herdeira MAC+ até o fim da revista em 2015.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *