1984-2024: 40 anos de Macintosh

Steve Jobs sentado à mesa de Susan Kare. Foto: Norman Seeff.

“UM COMPUTADOR PARA TODOS NÓS.” *

Quando o fotógrafo Norman Seeff chegou aos escritórios da Apple em janeiro de 1984, não sabia o que esperar. Um editor da Rolling Stone disse-lhe apenas que se tratava de uma “empresa estranha” cheia de hippies fabricando computadores. Agora Seeff, juntamente com o repórter Steven Levy, estava cobrindo esses “garotos prodígios” enquanto eles se preparavam para lançar seu mais recente produto – uma nova máquina chamada Macintosh.

A atmosfera dentro do escritório era um mundo totalmente distante dos trajes angulosos e os permanentes volumosos típicos do mundo corporativo dos anos 1980 nos Estados Unidos. Um valioso e caro piano de cauda Bösendorfer apresentava-se no saguão; os funcionários costumavam tocá-lo durante seus intervalos. Perto dali havia um toca-CD Sony da primeira geração conectado a um gigantesco par de caixas de som. Havia lambretas. Animais de estimação. Bebês. Todo mundo usava jeans; alguns até estavam descalços.

“Parecia uma comuna”, diz Seeff. “Tudo era muito vivo.”

A equipe tinha bons motivos para se sentir exuberante. O Macintosh pretendia ser o primeiro computador pessoal do mercado de massa que fosse verdadeiramente fácil de usar. A partir de sementes plantadas por outros, incluindo o ex-gerente da Apple, Jef Raskin, e pesquisadores da Xerox PARC e do Instituto de Pesquisas de Stanford, essa jovem equipe trabalhou dia e noite para criar um computador simples e sofisticado, projetado tanto para estimular a criatividade quanto para aprimorar produtividade. Agora faltavam apenas alguns dias para o lançamento.

Entre os cem funcionários do grupo, Seeff viu a pequena equipe de software brincando em frente à baia colorida da designer Susan Kare. Ele pegou sua câmera Nikon e começou tirar fotos, uma atrás da outra. A equipe trabalhou junto para então – com as mãos nos ombros e os joelhos nas costas uns dos outros – se organizar em uma pirâmide humana.

“Eu sou o mais leve, então acabei no topo”, diz Rony Sebok, que se junto à equipe Macintosh no Verão anterior (Inverno no Brasil) como engenheiro de software. “Não era um grupo pueril: era um bando de gente madura, mesmo sendo jovens. Mas foi divertido.”

Seeff tirou uma foto.

No topo da pirâmide, ao lado de Sebok, estava Susan Kare, vestida com um moletom cinza e jeans: ela havia projetado os tipos de letras e os ícones do sistema, e seu logotipo sorridente do Mac fazia a máquina parecer quase humana. No centro, estava Bill Atkinson, com seu suéter listrado, óculos e bigode: seu software gráfico foi fundamental para tornar o Macintosh tão fácil de usar. Ao lado dele, vestindo uma camiseta vermelha brilhante, estava Andy Hertzfeld, o principal arquiteto de seu admirável novo sistema operacional. A pirâmide parecia um resumo perfeito da ampla equipe do Macintosh: indivíduos talentosos se combinando para construir algo mais forte do que qualquer um deles poderia fazer sozinho.

O grupo continuou folgando até a pirâmide desabar, com todos rindo.

Steve Jobs, que gerenciava a equipe Macintosh desde 1981, estava acompanhando as filmagens o tempo todo. Quando o grupo caiu no chão, ele viu a oportunidade e juntou-se ao bolo de gente.

Seeff continuou fotografando.

Treze membros da equipe de software do Macintosh, um bebê e Steve Jobs, 1984. Foto: Norman Seeff.
A partir da esquerda: Randy Wigginton, Jerome Coonen, Donn Denman, Rony Sebok, Andy Hertzfeld, Bruce Horn, Bill Atkinson, Susan Kare, Owen Densmore, Steve Capps, Larry Kenyon, Patti Kenyon, Tracie Kenyon e Steve Jobs.

Steve sabia que o melhor trabalho transmite as ideias e intenções das pessoas que o criaram. E ele acreditava profundamente que esta equipe de engenheiros, designers e programadores, que também eram escultores, fotógrafos e músicos – uma equipe que integrava tecnologia e artes – poderia criar uma máquina para as pessoas comuns, “um computador para todos nós”.

Numa época em que os computadores eram complexos e difíceis de usar, era uma meta radical. Para chegar lá, Steve incentivou a equipe e os protegeu; ele os pressionou e expressou suas críticas. Pediu que assinassem seus trabalhos como artistas, ao mesmo tempo em que os lembrava de que estavam construindo uma ferramenta para outras pessoas usarem. “Daqui a cinco anos entraremos numa sala de aula, num escritório ou numa casa”, prometeu ele, “e alguém vai estar usando um Macintosh para algo que nunca sonhamos ser possível”.

Não muito depois dessas fotografias terem sido tiradas, o Macintosh foi anunciado ao mundo. O caminho a seguir não seria simples – nem para o produto, nem para o grupo que o criou, nem para o próprio Steve. Mas uma constatação era clara já em janeiro de 1984: novas coisas eram agora possíveis.

“Lembro-me da semana anterior ao lançamento do Mac”, comentou Steve em 2007. “Todos nos reunimos e dissemos: ‘Todo computador vai funcionar deste jeito. Não tem mais discussão. Você pode argumentar sobre quanto tempo vai demorar, mas não pode mais discutir sobre isso.’”

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* Esta é uma tradução livre de Marco Andrei Kichalowsky de um artigo da Steve Jobs Archive, instituição que mantém o arquivo pessoal de Steve Jobs e detém os direitos de uso, e foi publicado neste blog com objetivos de divulgação da história da Apple, dentro das regras do fair use, sem intenção comercial.

Author: Marco Andrei Kichalowsky

Editor-chefe do macnarama.com, é applemaníaco e trabalha com produtos Apple desde 1993. Foi presidente do Brasil Apple Clube durante 10 anos e colaborador da saudosa Macmania e sua herdeira MAC+ até o fim da revista em 2015.

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