“Hi, I’m a PC. And this is my iPod…”

Um pouco sobre mim

Como é de conhecimento público (ou de meus amigos, pelo menos!), eu tenho uma enorme restrição aos produtos da Apple. É importante ser honesto a respeito disso desde o começo. Não pensem, entretanto, que porque eu odeio a Apple eu adoro a Microsoft. Eu não vejo o mundo da computação como sendo esta disputa entre o bem e o mal. Até a virada do ano 2000, eu não parava de reclamar dos produtos de Bill Gates. O Office na época era lento e tinha o maldito clipe, o SQL Server era uma piada como banco de dados e a família Windows (95/98/Me) era um amontoado de bugs fazendo rodízio para decidir quem apareceria primeiro em uma tela azul.

“Eu tenho uma enorme restrição aos produtos da Apple. (…) Não pensem, entretanto, que porque eu odeio a Apple eu adoro a Microsoft.”

Utilizo tanto pessoal como profissionalmente produtos de hardware e software de diversos fabricantes e minhas preferências não se concentram em apenas uma marca. Preferir uma marca pra mim significa olhar com mais atenção o que aquele fabricante está propondo, não abraçar cegamente o que vier pela frente.

Porque comprei um iPod

Como todo mundo, vivo cercado por proprietários de iPhones e iPods que não param de exaltar as maravilhas dos seus aparelhos. A quantidade de adeptos não para de crescer, nem tampouco cessam os conselhos para adquirir um.

Foram dois amigos meus que conseguiram me motivar a comprar um iPod touch. Na verdade eles estavam me convencendo a adquirir um iPhone, mas caíram na asneira de dizer, dentre as inúmeras qualidades, que até suas filhas, de 2 e de 4 anos, se divertiam muito com o brinquedo.

“(…) dois amigos estavam me convencendo a adquirir um iPhone mas caíram na asneira de dizer que até suas filhas se divertiam. (…) Foi aí que eu fui fisgado.”

Foi aí que eu fui fisgado. Eu tenho uma filha de exatos dois anos e sei que o uso de um computador nesta idade é bastante contraintuitivo. Controles de Playstation, teclados e mouses não são páreo para algo que, além de colorido, pode ser manipulado diretamente com a mão. Melhor ainda: o aparelho tem apenas um botão.

Depois de pesquisar sobre preços e modelos, acabei comprando um iPod touch 3G de 32 GB. Comprei também uma capa colorida de borracha (rosa, é claro!) e uma película. O aparelho possui um acabamento excelente e, embora pareça delicado, em nenhum momento transparece fragilidade.

O iTunes

Minha primeira surpresa foi ao sair da loja. Uma amiga comentou que os aparelhos vêm com carga na bateria. Resolvi ligar. Não funcionou! Embora com carga, o aparelho precisava se conectar em um computador com iTunes instalado.

Fui advertido pelos meus amigos que o aparelho só poderia ser sincronizado com um iTunes, o que não é bacana para alguém que tem dois desktops e dois notebooks em casa e mais dois desktops no escritório. Resolvi instalar o iTunes em uma máquina virtual, assim eu poderia levar o iTunes sincronizado para qualquer lugar. Mais tarde um amigo maluco pela Apple me contou que há uma tramoia que permite o sincronismo em diversas máquinas.

O iTunes foi um capítulo a parte. (…) O software não me pareceu nem bom nem estável

O iTunes foi um capítulo a parte. Resumindo a batalha de algumas horas que eu travei com ele, até transformar o iPod em “Apple Mobile Device (Recovery Mode)” ele conseguiu. O software não me pareceu nem bom nem estável. Por necessidade, eu estou bastante familiarizado com softwares de gerenciamento de mídia. Tenho muitas fotos, muitos vídeos caseiros em Full HD, sem contar as músicas, e costumo fazer streaming disso tudo para outros dispositivos (TV, Playstation, notebook). O volume de informações travou por diversas vezes o iTunes, fiquei sem saber se ele estava realmente travado, ou se estava tentando digerir o excesso de informação.

Meus vídeos não foram reconhecidos (H.264) e minhas fotos foram convertidas. A demora na conversão da mídia é um processo compreensível e, aparentemente, a conversão no caso das fotos é opcional. Inexplicável é a necessidade de manter conectado o aparelho durante todo o processo. São horas de conversão contra alguns poucos minutos para a transferência efetiva dos arquivos para o aparelho. Que falta faz uma opção para colocar a mídia diretamente no sistema de arquivos, como se fosse um pen drive.

O iPod

Largando o iTunes, me concentrei finalmente no aparelho em si, começando pela Apple Store. O processo todo é fácil rápido e intuitivo. A pesquisa e instalação dos aplicativos é simples e rápida, permitindo que eu pesquise por novos programas enquanto baixo outros.  As aplicações rodam de forma rápida e a tela é impressionantemente sensível ao toque. O display tem uma boa luminosidade e contraste, embora pudesse ter uma resolução melhor. O WiFi é bastante rápido, contribuindo para uma boa experiência com a navegação na internet e com os vídeos do YouTube.

Após instalar alguns aplicativos infantis recomendados pelos meus amigos, entreguei o iPod para a sua dona. Após uma breve explicação, fiquei espantado com a desenvoltura dela com o aparelho. Tudo foi muito intuitivo, muito natural. Ela sacou de cara a idéia de que quando estava perdida bastava apertar o botão para voltar à tela inicial. Claro que a tela inicial foi previamente customizada para conter apenas os joguinhos, fotos, YouTube e música.

Fiquei maravilhado com o desenrolar desta história. Passaram-se apenas três dias desde que comprei o aparelho. Creio que as experiências que minha filha está tendo com um iPod são únicas e que nenhum outro aparelho que conheço poderia estimulá-la tanto por si só. Como efeito colateral, hoje a noite ela ficou me observando trabalhar e pediu para que eu mostrasse um joguinho no PC. Ao contrário das tentativas anteriores, desta vez ela conseguiu entender a relação mouse/tela/clique/ação que controla um computador. Só posso atribuir isso a introdução deste iPod no mundo dela.

Serve pra mim?

Como diz um amigo meu dono de blog em resposta a cada restrição que eu comento sobre um produto da Apple, “tu não és o público-alvo”.

Mesmo pensando em um iPhone com câmera, GPS e internet 3G, o meu uso diário seria seriamente restrito a ponto das limitações superarem os benefícios. Os grandes problemas do aparelho são conhecidos por todos (e negados por alguns), mas não custa repetir:

A digitação em tela, além de roubar espaço de texto, não é páreo para um teclado físico.

A falta de multitarefa poderia ser no mínimo compensada com alguma espécie de preservação do contexto dos programas. É frustrante estar em um programa que te leva a uma página na internet ou a loja, sem que depois haja uma opção de retorno. Ou simplesmente não poder sair brevemente de um programa para pesquisar algo na Web e retornar.

A duração da bateria é boa, principalmente se considerarmos que se trata de um aparelho em que mantemos o WiFi ligado o tempo todo. Porém, a avaliação positiva termina neste critério técnico. Na prática, significa que você não pode se afastar muito da tomada e que a vida será pior quanto mais o tempo passar graças ao envelhecimento da bateria. A quantidade de soluções mirabolantes de terceiros para o problema da bateria demonstra o quão grande é o problema.

A falta de entrada para cartões, associada à ausência de acesso nativo ao sistema de arquivos e ao fato de que não é possível trocar arquivos diretamente com um computador ou outro device sem passar pelo iTunes, torna o uso muito mais burocrático. O controle excessivo da Apple sobre o uso do dispositivo conseguiu a proeza de impedir que um device de 32 GB se transforme em um pen drive simples. Para virar um pen drive é necessária a instalação do iTunes e de um programa de terceiros, ainda assim o iPod não reconhecerá os arquivos copiados por este processo.

Como desenvolvedor e como cliente me incomoda profundamente a Apple ter a palavra final sobre tudo o que pode ou não pode ser instalado no aparelho. Vivemos em uma época onde criticamos os chineses e até mesmo o nosso próprio governo por atos de censura contra a liberdade de expressão, não podemos tolerar estes abusos. É como se eu comprasse um carro que eventualmente não pode mais ir até a cidade X, pois “a cidade X é muito perigosa e seus habitantes são conhecidos por ofender seus visitantes, ou porque as ruas da cidade X costumam danificar os pneus dos carros”. Isso sem falar nos casos em que a censura é feita puramente por motivos econômicos.

“É uma pena que para um usuário mais pesado, que já tenha vivência com o ambiente este, seja comparativamente um aparelho muito limitado.”

Conclusão

No fim das contas trata-se de um aparelho excepcional, rápido e muito intuitivo com um potencial de diversão elevadíssimo. Pessoas de todas as idades podem ter horas de diversão com um destes por perto. A quantidade de novos aplicativos que surge a cada dia, com novos e inusitados usos para o brinquedo, garante que não haverá monotonia enquanto houver carga na bateria.

É uma pena que para um usuário mais pesado, que já tenha vivência com o ambiente, este seja comparativamente um aparelho muito limitado. A maioria das limitações que impedem que o aparelho seja utilizado de uma maneira mais eficiente e abrangente é fruto de decisões meramente políticas e não técnicas como costumamos ver em aparelhos de outros fabricantes. A Apple não cansa de provar que é uma das empresas mais brilhantes quando se fala em criatividade e proficiência tecnológica, mas suas estratégias de mercado continuam a frear o potencial dos seus produtos.