Woz desafia a Apple: É hora de reconhecer o direito dos clientes de reparar seus aparelhos

Em vídeo gravado na plataforma Cameo destinado a Louis Rossmann, técnico especialista em produtos Apple e uma das vozes do “Direito de Reparar”, Steve Wozniak disse que era “totalmente favorável” à causa e um tanto “emocionalmente” afetado por ela. Ele foi claro: “não teríamos uma Apple se eu não tivesse crescido em um mundo de tecnologia muito aberta”.

Depoimento de Steve Wozniak sobre movimento Right to Repair

Durante o vídeo, Woz falou sobre como aprendeu a construir e modificar seus próprios dispositivos desde jovem, inclusive com uma licença de rádio amador aos 10 anos de idade.

“Naquela época, quando você comprava coisas eletrônicas como TVs e rádios, cada parte dos circuitos e projetos eram incluídos no manual. Código aberto total”, disse. “Se você sabe o que está fazendo (…) você pode consertar muitas coisas a baixo custo. Mas é ainda mais precioso saber que você mesmo fez isso”, complementou.

Wozniak destacou que permitir que outras pessoas reformulem seus dispositivos também tem valor comercial e deu como exemplo o Apple II, “modificável e extensível ao máximo” e a “única fonte” de lucro para a Apple durante seus primeiros anos. “Não foi um sucesso por pura sorte. (…) Havia muitas coisas boas em ser tão aberto em que todos podiam participar da festa”, explicou.

“Acredito que as empresas [ainda] o inibem [o direito de reparar] porque dá às empresas poder, controle sobre tudo”, pondera Woz. Mas desafia: “É hora de começar a fazer as coisas certas. (…) É hora de reconhecer o direito de reparar mais plenamente”.

Os comentários de Wozniak (que deixou a Apple como funcionário ativo em 1985) ocorrem no momento em que a empresa há muito enfrenta críticas sobre políticas que restringem onde seus clientes podem consertar seus iPhones e outros aparelhos eletrônicos sem comprometer suas garantias. A empresa costumava permitir que apenas as assistências autorizadas recebessem peças originais e outros materiais necessários para fazer as consertos. Isso mudou um pouco em 2019, quando a Apple ampliou o número de empresas de reparos oficialmente reconhecidas, mas ainda é pouco, especialmente no Brasil, onde a rede autorizada é restrita.

Foto: Paolese/AdobeStock

Consumidores querem ter a liberdade de consertar seus produtos

A verdade é que é cada vez mais difícil consertar um iPhone ou um Mac, não só pela falta de informação oficial, mas pela construção fechada e monolítica dos produtos Apple. Neste contexto, surge o movimento Right to Repair (“Direito a Consertar”, em Inglês), que busca garantir aos consumidores o direito e as informações adequadas para consertar seus próprios equipamentos.

A causa não se refere somente a computadores ou dispositivos eletrônicos. Apesar de estar aparentemente ligada a consumidores com um perfil mais técnico, ela tem ganhado muito espaço em relação a qualquer tecnologia, como eletrodomésticos e outros eletroeletrônicos.

No Reino Unido, novas medidas foram introduzidas para exigir que os fabricantes de televisores, lava-roupas e geladeiras forneçam peças de reposição aos consumidores. Nos Estados Unidos, pelo menos 27 estados já deliberaram a respeito do tema e até o Departamento de Agricultura do país declarou que estava “pensando em dar aos agricultores o direito de consertar seus próprios equipamentos”.

Na Europa, o Parlamento entende o “direito a consertar” na impulsão da sustentabilidade, promovendo a reutilização e os reparos, e combatendo práticas que encurtam a vida útil dos produtos. De acordo com o Eurobarómetro, 77% dos cidadãos da União Europeia preferem reparar os seus dispositivos a substituí-los; 79% acham que os fabricantes devem ser legalmente obrigados a facilitar o reparo de dispositivos digitais ou a substituição de suas peças individuais.

Por outro lado, no Brasil ainda estamos engatinhando: o país ainda carece de leis específicas por encontrar obstáculos semelhantes a de outros países em desenvolvimento. “Existe uma questão cultural de descartar o que é velho e comprar o novo. Na Europa você vê uma pessoa usar o mesmo casaco até não poder mais. Aqui é diferente, há uma valorização do novo”, afirmou Cristina Helena Pinto de Mello, pesquisadora de consumo e desenvolvimento econômico.

Com informações de iFixit, CNN, Estadão e Parlamento Europeu.

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Autor: Marco Andrei Kichalowsky

Editor-chefe do macnarama.com, é applemaníaco e trabalha com produtos Apple desde 1993. Foi presidente do Brasil Apple Clube durante 10 anos e colaborador da saudosa Macmania e sua herdeira MAC+ até o fim da revista em 2015.